Foto de antes e depois: o consentimento de imagem que a clínica esquece de pedir
Usar a foto do paciente no marketing exige um consentimento de imagem específico, separado do tratamento — e que o paciente pode revogar. Veja como pedir do jeito certo.
MC
Mariana Costa
Advogada · revisado pela equipe jurídica
Atualizado em 31 de mai. de 2026
O antes e depois é o melhor anúncio que uma clínica de Harmonização Orofacial tem. Um resultado bonito posta sozinho. O problema não é mostrar — é mostrar sem ter pedido.
A foto do seu paciente é dele, não da clínica. E o documento que ele assinou para fazer o procedimento não te autoriza a colocar o rosto dele no Instagram. São duas coisas separadas. Vamos arrumar isso.
A foto do paciente é dele, não sua
A imagem de uma pessoa é protegida pela Constituição (art. 5º, X) e pelo Código Civil (art. 20). Em palavras simples: ninguém pode usar a imagem de outra pessoa sem autorização, ainda mais quando essa imagem expõe um detalhe íntimo — como o rosto antes e depois de um preenchimento.
Quando a foto mostra o resultado de um tratamento de saúde, ela vira também um dado pessoal sensível. A LGPD (Lei 13.709/2018) coloca o dado de saúde nessa categoria mais protegida, no art. 11. Tratar dado sensível exige base legal própria — e, para marketing, isso significa consentimento.
Ou seja: você não está só "postando uma foto". Você está divulgando informação de saúde de um paciente identificável. Sem consentimento específico para isso, o uso é indevido, e a responsabilidade recai sobre a clínica.
O ponto centralO consentimento do tratamento autoriza o procedimento; ele não autoriza usar a foto do paciente em marketing — para isso é preciso um consentimento de imagem separado.
Por que o TCLE do procedimento não basta
O termo que o paciente assina antes do procedimento fala dos riscos, dos cuidados e do que esperar do resultado. É sobre o tratamento. A finalidade dele é o consentimento clínico — e o Código de Ética Odontológica (Res. CFO-118/2012, art. 11) trata justamente desse dever de informar e consentir o procedimento.
Usar a imagem em uma campanha é outra finalidade. A LGPD trabalha com a ideia de que cada finalidade precisa da sua própria autorização. Você não pode pegar um "sim" dado para o tratamento e esticá-lo para cobrir a publicidade. Quem faz isso fica com os dois documentos fracos: o consentimento clínico contaminado por publicidade, e a autorização de imagem que, na verdade, nunca existiu.
A regra prática é esta: um documento para tratar, outro para divulgar. Quer entender como a LGPD organiza tudo isso na clínica, veja LGPD na clínica odontológica.
O que uma autorização de imagem válida precisa ter
Não adianta um "pode usar minha foto?" no WhatsApp. A autorização precisa ser específica e destacada — o paciente tem que saber exatamente no que está consentindo. Quanto mais clara, mais ela resiste a um questionamento depois.
Quais imagens serão usadas (foto, vídeo, antes e depois)
Onde serão publicadas (Instagram, site, material impresso — nomeie os canais)
Com qual finalidade (divulgação dos serviços da clínica)
Por quanto tempo o uso é autorizado
Se a identidade aparece ou se será preservada
Que a autorização é revogável a qualquer momento, sem custo
Data e assinatura do paciente
Repare no último ponto da prática: o consentimento de imagem é revogável. O paciente pode mudar de ideia, e a clínica precisa parar o uso e retirar a publicação dentro de um prazo razoável. Por isso o documento escrito e datado importa tanto — ele mostra o que foi combinado e quando.
Como pedir sem assustar o paciente
Pedir autorização de imagem não precisa ser um momento desconfortável. É parte do cuidado: você está respeitando a privacidade da pessoa. Quem pede com clareza passa seriedade, não insegurança.
01
Separe o pedido do tratamento
Apresente a autorização de imagem em outro momento, com documento próprio. Deixe claro que dizer "não" não muda em nada o atendimento.
02
Explique a finalidade em uma frase
"Gostaríamos de mostrar seu resultado nas redes da clínica, com seu rosto, por tempo indeterminado, e você pode pedir para retirar quando quiser."
03
Registre por escrito e datado
Colha a assinatura no documento específico e guarde junto ao prontuário, sem misturar com o consentimento clínico.
04
Tenha um caminho de revogação
Combine como o paciente pode pedir a retirada (um canal simples) e cumpra o pedido com agilidade.
Um detalhe que pega muita clínica: ocultar olhos ou cortar o rosto reduz o risco, mas não elimina a necessidade de autorização se a pessoa ainda for identificável. Tatuagem, sorriso, contexto — tudo isso identifica. Na dúvida, peça.
E vale a ressalva de sempre: nenhum documento de imagem conserta um problema clínico. Ele organiza o uso da foto; ele não substitui a anamnese nem o consentimento do procedimento. Se quiser fechar o ciclo da documentação, comece pela anamnese como defesa.
Consentimento de imagem é à parteAutorizar o tratamento não autoriza usar a foto. O consentimento para divulgar a imagem é específico, com finalidade definida, e o paciente pode revogá-lo a qualquer tempo.
Fechando
Mostrar resultado é legítimo e funciona. O que não pode é usar o rosto do paciente sem que ele tenha dito sim, por escrito, para aquela finalidade específica — e sabendo que pode voltar atrás.
Trate o consentimento de imagem como ele é: um documento próprio, claro, datado e revogável. Assim você divulga seu trabalho com tranquilidade e mantém a relação com o paciente firme. Doczou, a autorização fica registrada — e você posta sem dor de cabeça depois.
Principais conclusões
O consentimento do tratamento NÃO autoriza usar a foto em marketing — são dois documentos diferentes.
A autorização de imagem precisa ser específica: qual foto, em qual canal, com qual finalidade, por quanto tempo, e é revogável.
Imagem clínica é dado sensível (LGPD); sem consentimento válido, o uso gera responsabilidade da clínica.
Perguntas frequentes
O TCLE do procedimento já autoriza usar a foto no Instagram?
Não. O consentimento do tratamento trata do procedimento e dos riscos clínicos. O uso da imagem em marketing é uma finalidade diferente e exige autorização própria, específica e destacada. Misturar os dois enfraquece os dois.
O paciente pode pedir para tirar a foto do ar depois de ter autorizado?
Sim. O consentimento de imagem é revogável a qualquer momento. Quando o paciente revoga, a clínica deve interromper o uso e remover a publicação dentro de um prazo razoável. Por isso convém registrar a autorização por escrito, com data.
Posso publicar se eu cobrir os olhos ou cortar o rosto do paciente?
Ocultar a identidade reduz o risco, mas não substitui o consentimento se a pessoa ainda for identificável. Sinais, tatuagens, contexto e o próprio rosto podem identificar. O caminho seguro é sempre pedir a autorização específica antes de publicar.
Fontes e referências
1.Constituição Federal, art. 5º, X (inviolabilidade da imagem)
2.Código Civil, art. 20 (uso e divulgação da imagem)